El Niño e La Niña: como um ciclo do Pacífico move os preços agrícolas

A cada dois a sete anos, a superfície do Pacífico tropical central e leste aquece (El Niño) ou esfria (La Niña) por vários meses. Essa oscilação, chamada em conjunto de ENSO, desloca os cinturões de chuva do planeta e torna secas e enchentes mais prováveis em regiões agrícolas específicas. Serviços meteorológicos como a NOAA, dos EUA, e o Bureau of Meteorology, da Austrália, acompanham o fenômeno e declaram o início de um episódio, e os mercados de grãos, oleaginosas e produtos tropicais seguem essas previsões de perto.

El Niño: seca na Ásia e na Austrália

O El Niño costuma trazer tempo mais seco para a Austrália (trigo, cevada, canola), a Indonésia e a Malásia (óleo de palma) e a Índia, onde pode enfraquecer a monção da qual dependem o arroz, a cana-de-açúcar e as leguminosas. Em 2009, um El Niño deixou a monção indiana irregular, causou a pior seca em quase quatro décadas e ajudou a levar o açúcar ao maior preço mundial em quase 30 anos. O óleo de palma reage com atraso porque as palmeiras levam meses para frutificar: depois do forte El Niño de 2015-16, a produção da Malásia caiu 13% em 2016. A seca por trás da alta do cacau em 2023-24 na África Ocidental também foi associada ao El Niño. Já para a Argentina e o Sul do Brasil ele costuma trazer chuvas bem-vindas.

La Niña: seca nas Américas

A La Niña inverte mais ou menos o padrão. Ela aumenta o risco de seca na Argentina, no Sul do Brasil e nas Grandes Planícies do sul dos EUA, onde cresce o trigo vermelho duro de inverno, enquanto Austrália e Sudeste Asiático tendem a ficar mais úmidos. A safra 2022/23 da Argentina, terceiro ano seguido de La Niña, mostrou o custo disso: a colheita de soja caiu para cerca de 25 milhões de toneladas, ante 43,9 milhões no ano anterior.

O que isso significa para os preços

O ENSO muda as probabilidades, não decide o clima: alguns anos de El Niño passam com safras normais nas regiões mais expostas. Como os mercados negociam expectativas, os preços costumam se mover quando as previsões elevam a chance de um episódio, meses antes de qualquer colheita, e recuam se a chuva acaba vindo. No óleo de palma e nas culturas perenes, o efeito sobre a oferta pode durar até o ano seguinte. Como o risco climático entra nos preços é explicado em Clima e risco de preço; a previsão atual é publicada pelo Climate Prediction Center da NOAA e pelo Bureau of Meteorology australiano.

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Perguntas frequentes

Com que frequência ocorrem El Niño e La Niña?
De forma irregular, mais ou menos a cada dois a sete anos, e cada episódio costuma durar de nove a doze meses; entre eles há fases neutras.
Quais culturas são mais expostas ao El Niño?
As da Austrália, da Índia e do Sudeste Asiático, onde ele costuma trazer seca: trigo e canola na Austrália, arroz, açúcar e leguminosas na Índia e óleo de palma na Indonésia e na Malásia, que reage com meses de atraso.
La Niña significa sempre seca na Argentina?
Não, mas aumenta o risco. A colheita argentina de soja de 2022/23 caiu para cerca de 25 milhões de toneladas depois de três anos seguidos de La Niña, ante 43,9 milhões na safra anterior.