Açúcar e etanol: por que as usinas do Brasil podem mudar o que produzem

O açúcar é incomum entre os produtos agrícolas por ter uma ligação direta e flexível com um mercado de combustíveis - e essa ligação passa pelo Brasil, o maior produtor mundial de açúcar e de cana-de-açúcar, de um jeito que molda os preços mundiais do açúcar mais do que quase qualquer outro fator isolado.

Usinas flex: a mesma cana, dois produtos diferentes

As usinas de cana do Brasil podem transformar a mesma cana colhida em açúcar bruto para o mercado mundial ou em etanol para o combustível interno, e muitas usinas podem mudar essa divisão de uma semana para outra conforme o produto que estiver pagando melhor. Essa flexibilidade faz com que a oferta brasileira de açúcar não dependa só de quanta cana é colhida - ela também depende, a cada momento, do preço relativo do açúcar em relação ao etanol, com as usinas direcionando mais cana para o que for mais rentável.

Por que isso liga o preço do açúcar aos preços dos combustíveis

Como o etanol concorre diretamente com a gasolina nos postos do Brasil (os carros de lá costumam rodar com qualquer mistura dos dois), o preço que as usinas conseguem pelo etanol está ancorado na gasolina e, por consequência, no petróleo. Quando o petróleo sobe, o etanol fica mais atraente de produzir, as usinas desviam cana do açúcar, e menos açúcar chega ao mercado mundial - elevando os preços do açúcar mesmo sem nenhuma mudança na safra de açúcar em si. Quando o petróleo cai, pode acontecer o contrário. É um mecanismo parecido com a ligação entre milho e etanol explicada no artigo sobre biocombustíveis, mas mais direto, já que as usinas brasileiras podem realocar a mesma matéria-prima quase em tempo real, e não por meio de uma decisão de plantio mais lenta.

Índia e Tailândia: os outros grandes produtores decisivos

Índia e Tailândia são os maiores produtores e exportadores de açúcar do mundo depois do Brasil, e ambas têm influência própria significativa no equilíbrio mundial - uma colheita excepcionalmente grande ou pequena em qualquer um dos dois países, ou uma mudança na política de exportação de açúcar da Índia em particular (a Índia restringiu periodicamente as exportações de açúcar para proteger o abastecimento interno), pode mover os preços mundiais independentemente do que aconteça no Brasil.

Um legado de mercados protegidos: o exemplo da UE

O açúcar foi historicamente um dos mercados agrícolas mais protegidos do mundo. A UE manteve por décadas um sistema rígido de cotas de produção, que limitava quanto açúcar os produtores europeus podiam vender no mercado interno, antes de aboli-lo em 2017 para que os produtores da UE competissem de forma mais direta no mercado aberto. Esse tipo de legado de política ainda molda os padrões de comércio e as relações de preço de hoje, de maneiras que uma visão do mercado de açúcar baseada apenas em clima e colheita deixaria passar.

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